Setembro 20 2008

Toda a vida ouvi dizer que as palavras são como as cerejas.....ora, como adoro cerejas sempre achei esta frase deliciosa!!!! E para além de ser sábia ( como qualquer frase nascida no ventre do povo) tem dentro de si aquela magia de nos despertar a imaginação para os seus diferentes sentidos! Para mim as palavras são sempre como as cerejas porque uma puxa sempre pela outra e da maneira que sou tagarela primeiro que me cale....ui, ui!!!! Mas também podem ser doces...e podem sobretudo ser partilhadas...da forma mais simples até à mais complexa! Gosto sobretudo das palavras que se tornam eternas....que atravessam o tempo e que por serem o produto de um momento de inspiração fazem com que cada vez que as ouvimos ou lemos nos adocem os sentidos como se de doces cerejas se tratassem!!!!! Porque estou sempre em tempo de vos adoçar a alma...deixo neste post um dos meus poemas favoritos do grande poeta José Régio!

 

 Cântico negro

 

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

publicado por sandra às 15:24

Muito interessante o poema ;)
Helena Antunes a 20 de Setembro de 2008 às 17:59

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